Lázaro
Parte dois de um conto em três partes
(Assinantes gratuitos podem ler a primeira parte aqui. No mesmo link, assinantes pagos têm acesso ao conto na íntegra.)
Mas preás são bichos bons, cachorros é que são maus. Diziam que o cachorro da madrinha gostava de comer preás. Eu gosto da madrinha mas não do cachorro dela, que era mau, que comia preás. Preás não são pra ser comidos, preás são pra gente contar histórias pra eles já que ninguém acredita nas nossas.
Se eu tivesse contado a minha história pra madrinha ou pro padre, e não prum preá, eles talvez agora esperassem pelo menos até amanhã pra ver se eu cheirava, antes de me enfiar nesses ternos que fedem muito mais que o que eu federia se tivesse morrido de verdade uma terceira vez, lembrassem da minha história e resolvessem esperar por mim.
Fedem tanto que se eu pudesse levantava daqui e pedia que enchessem o caixão de flores cheirosas como a minha madrinha, que não é como as comidas que apodreciam e que me davam de comer antes de conhecê-la. A madrinha é cheirosa e coloca perfume em mim em dia de festa, embora eu não possa entrar na festa porque dizem que eu não sei dançar. Mas eu sei dançar sim. Só que quando eu danço todos riem de mim e eu não acho graça nenhuma, por isso corro atrás deles e até tropeço e acho que vou morrer de novo, mas dessa vez eu não morro e rasgo meu pé pra que a madrinha ponha isso que ela chama de curativo e que sara até mordida de cachorro.
A madrinha também não entende por que não me deixam entrar na festa, eu que danço tão bem. Eu que até roupa de festa posso ter se quiser mas prefiro andar assim quase nu, porque do que adianta a gente andar vestido se sente tanto calor? Agora por exemplo eu estou aqui vestido dentro deste caixão e sinto tudo tão quente que se eu conseguisse tiraria minha roupa aqui agora mesmo.
Deus haveria de me perdoar porque o filho dele também anda assim pela igreja e ninguém fala nada. A madrinha devia era trazer um curativo pra ele, que carrega essa cruz tão pesada sem nem o padre ajudar. Eu às vezes sinto pena desse homem mas sempre que eu volto ele está carregando essa cruz, deve gostar de sofrer então que sofra, o infeliz. Eu sofro e só a madrinha me ajuda.
Um dia, no açude, também me chamaram de infeliz. Me afogaram só porque eu provei pra eles que eu também sabia nadar, e eu chorei não porque me afogaram, mas porque eu não era infeliz coisa nenhuma, eu que tinha afinal os preás, a madrinha, e até o padre, pra quem eu perguntei se eu era mesmo infeliz e ele disse que infelizes eram todos os que sofriam, e que só eles que viveriam no eterno. Então sim, julguei que eu também era infeliz. Vai ver foi por isso que morri uma vez e não precisei esperar três dias como o homem da cruz pra voltar pra casa da madrinha.
Eu também sou filho de Deus, é isso que o padre me diz, mas eu não gosto nada de sofrer não. Aliás, o que eu gosto mesmo é de caçar preás, isso sim. Andar nas pedras até que um deles aparece e zás, pego pelo rabo e não deixo mais escapar. Ninguém sabe caçar preás melhor do que eu. Eu digo isso porque um dia eu vi um deles caçando preás, o que me chamou de infeliz, mas eu fiquei só reparando e vi que ele tentava pegar o bicho acuando, e preá só se pega na astúcia, como que dando o bote.
Cachorro é quem gosta de acuar, e até cachorro perde a valentia se um bicho maior dá o bote nele. Foi assim que matei o cachorro da madrinha. Ele um dia apareceu nas pedras e eu logo soube que também era pra caçar preás. E eu posso até perdoar gente como eu atrás de caçar preá, até gente ruim que chama você de infeliz e quando pega o preá na gaiola não quer botar pra cruzar com o seu. Mas cachorro pegar preá pra comer eu não admito não. Ainda mais o cachorro da madrinha que me estranha e ainda ganha pão pra não ter fome de morder ninguém.
Fiquei mesmo espiando, como o povo que vai e vem da igreja e fica querendo ver as bolotas de algodão que me botaram nos furos das ventas e nos tampos da orelha. O cachorro da madrinha ficou lá mordendo rabo, dando uma de doido, fingindo que não tava nem aí pra nada. Mas eu não me enganei não, que eu já vinha no costume do danado e sabia que ele tava ali era só esperando um preá passar pra dar o salto solto e arrastar o pobre pro bucho junto com o pão que tinha ganhado no almoço.
Lambeu o chão, arrancou mato, e quando um preazinho fez que não ia mas foi pelas beiras de uma pedra ele se armou todo e fez que queria brincar como quando a madrinha ajeita o pão no arame pra ficar dando cabimento pro maldito. Eu não sei se o preá caiu mesmo na dele mas o bicho saiu assim como quem quer cheirar as fuças do outro, parou tremendo e só fez carreira depois, quando o cachorro já tava todo naquele jeito de pegar as coisas parecendo que ganhou mão de gente.
Abriu a boca e o falso era um cuidado tão grande pra apanhar o preá que quem via achava que ele só ia era dar carona pro inocente. Mas só eu sei que cachorro é criatura ruim que não merece confiança, porque agarrava o couro dele com o dente sem tirar sangue que era pra demorar o apetite e comer com mais gosto depois.
Saiu feito eu quando roubo hóstia do padre. Quando me percebeu já na rua larguei pau em cima até que ele soltasse o bicho. Mas na raiva já tinha apertado tanto o preazinho que ele já era só a tripa saindo da boca, uma bolotona sebosa de algodão que te enfiam lá dentro. Me acheguei pra olhar de perto como os mais velhos fazem agora aqui na minha frente, contando idade em funeral, e o cachorro avançou na lembrança do dia que tentei roubar um pão que a madrinha tinha dado pra ele. Antes que ele mordesse como no dia eu voei no pescoço e apertei, apertei até que saiu a tripa do cinturão da madrinha, que me fez parar e me deu a lição.
(Continua semana que vem…)



Envolvido na leitura. Pensei em um Brás Cubas que tomou chá de Riobaldo...