Lázaro
Um conto antigo, em três partes
Eles não sabem, mas esta não é a primeira vez que eu morri. Da primeira não tinha ninguém pra ver nem acusar minha morte, mas morri e se não foi uma morte morrida como as outras é porque hoje estou aqui pra contar a história: vivo, apesar de acharem o contrário.
Ninguém vai lembrar disso porque foi há muito tempo, e se alguém disser que se lembra pode desconfiar que é mentira e mandar enterrar a língua junto comigo daqui a pouco, porque ninguém estava lá pra ver, ninguém nunca soube de nada e eu só vou contar agora que aconteceu de novo.
Eram tempos que eu andava nas pedras caçando preás. Gosto de caçar preás porque, diferente dos cachorros, preás não têm dono nem mordem com tanta força. Passei a vida inteira caçando preás, e embora não ache engraçado isso de me compararem a um, eu sei que os preás são bichos muito parecidos comigo, porque não tenho que me esforçar bastante pra conseguir pegar um pelo rabo enquanto os cachorros, esses sim, têm raiva de mim e nunca me deixaram pegar.
Nesse dia tive a sorte e estava quase pegando o segundo preá quando escorreguei e caí com a cabeça no chão. Não sei o que aconteceu depois porque tudo o que tinha em volta escureceu e eu dormi, e quando eu acordei os preás já tinham ido embora e não conseguia mais abrir os olhos, porque tudo o que era corpo a morte já tomava de conta.
Da morte eu sabia porque o padre tinha falado. Disse que a morte é pra quem não acredita nele. Que quem acredita nele, ainda que morra, viverá. E eu bem que acredito no padre. Ele é que parece não acreditar em mim, não sabe que ainda estou vivo e me olha com essa cara de quem bebeu vinho antes da missa começar. Se ele pudesse me entender por dentro agora saberia disto: que ele estava certo, que quem acredita nele vive, porque eu morri uma outra vez e voltei, e não é agora que eu vou morrer pra sempre, então que ele me tire desta cama e me bote o que comer na mesa.
Porque parece que estar morto é sentir uma fome que nunca se acaba. Eu tinha muito medo da morte até aquele dia nas pedras em que fiquei não sei quanto tempo ali esticado, os cachorros aparecendo em volta, querendo me morder sem eu conseguir espantar. Até que a lua passou feito urubu por cima, e só quando ela passou mesmo foi que os cachorros fugiram com medo e eu senti a noite dentro de mim se iluminando, a fome que eu tinha me fazendo levantar devagar, sem susto, as pernas meio bambas me levando de volta pra casa da madrinha.
Foi ela quem me deu de comer e me limpou quando eu cheguei lá, porque a madrinha nunca me nega o que comer e cuida muito bem de mim. Não contei a história pra ela, não contei pra ninguém, mas me valeria mesmo era ter contado porque agora, em vez de chamarem ela pra me dar de comer, ela vem pra me vestir uma roupa de defunto e olhar pra mim com essa cara de pena. Ela que é sempre tão boa comigo. Ela que sabe o duro que é isso de parecer um preá, embora eu não tenha culpa nenhuma de parecer um preá, isso é o que ela me diz.
A madrinha sim é uma pessoa boa. O padre também é. Eu é que não sou muito bom porque eu brinco com Deus e as coisas dele, e Deus não é coisa assim que se brinque não. Deus é algo maior, e melhor do que caçar preás nas pedras e brigar com os cachorros na rua é ajoelhar muito no milho pra Deus botar o que preste na nossa cabeça. Só que eu não vejo muito futuro nisso de rezar pra Deus. Deus sabe o quanto chamei por ele das vezes que me provocavam os cachorros. Deus sabe que o melhor mesmo é caçar preás, que não fazem mal a ninguém.
Ele também há de me perdoar, ele que tudo perdoa. No dia em que matei o cachorro da madrinha, levei uma surra, mas foi isso que o padre disse a ela depois, que eu ouvi: que Deus tudo perdoa, até alguém como eu. E eu sei que Deus perdoa que se eu matei o cachorro também foi pra ver se ele voltava, mas o cachorro não voltou, ficou ali deitado sem se mexer até o dia seguinte, quando os carros já passavam por cima dele e nem assim ele se levantou. Ficou estatelado, a boca aberta parecendo um preá gigante que a gente aperta, aperta só pra ver ele gritar.
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