Lázaro
Parte final de um conto em três partes
(Assinantes pagos podem ler o conto na íntegra no post que inicia esta série)
E Deus sabe que se eu tivesse ouvido a madrinha eu não teria morrido, é o que ela diz ao padre sem saberem que esta não é a primeira vez que eu morri. Mas Deus há de me perdoar se eu não ouvi a madrinha e continuei caçando preás, agora perto do açude, onde me afogaram. Porque quando a gente ajoelha no milho e pede perdão a Deus ele perdoa qualquer coisa, diferente de quando a gente ajoelha no açude e vem todo mundo fazer covardia com a gente, e a gente tem que gritar feito louco porque não é maior do que todo mundo nem pode dar um bote pra matar pelo menos um e dar de comer pros cachorros, pra deixarem em paz os meus preás.
Me chamam de infeliz mas vieram todos aqui, ficam na janela da igreja sem coragem pra entrar e me encarar depois da aposta, feito a cachorrada na primeira noite que eu morri. Eu mexo uma mão mas ainda nem tenho força nem a janela é tão perto pra agarrar o pescoço de algum. Nem também eu correria o risco de cismar com o cinturão da madrinha que hoje amarrou a roupa nova de domingo com ele e tá ali de costas falando com o padre. A madrinha vai me dar o que comer quando eu finalmente levantar daqui como eu levantei no açude e mostrei pra eles que eu podia também pular do alto da mangueira no fundo da água.
O que me chamou de infeliz e que não sabe caçar preás, esse que correu porque viu minha mão mexendo e puxou os outros junto com ele, ficou dando ombrada no açude e dizendo que eu não tinha peito pra nada. Que voltasse pra casa da madrinha porque meu negócio era fazer maldade com cachorro que não sabe falar nem tem palavra pro desafio. Eu disse que se ele duvidasse botasse o preá que ele pegou pra cruzar com o meu que eu mostrava como que era. Ele cuspiu a mão e selou comigo e saiu se rindo com os outros. Ficaram lá imitando preá quando eu subi na mangueira e mirei ali bem onde eu vi eles pularem da vez que o açude encheu e foi dar água até na pedreira, e era difícil pegar preá porque escorregava e era capaz de morrer de novo e vir cachorro pra espreitar a morte da gente.
Tamparam o caixão e foi parecido quando a lua passou feito um urubu por cima de mim. Só que agora quando a noite de dentro se iluminou era dia, e tudo era mais escuro em volta porque o caixão fechou. Foi me faltando o ar, me dando mais fome, e senti me carregarem como quando eu pulei e minha cabeça, a mesma que caiu nas pedras, achou o fundo do açude primeiro que o resto do corpo. Fiquei boiando feito um preá quando você também joga ele na água. Infeliz parece que tá morto, é o que eu penso nessa hora, e era também o que eles diziam enquanto tiravam as gaiolas da carroça pra me botar em cima dela e me levar pro padre. O sol queimava minha testa sem eu poder nem abrir o olho e até me virar agora eu me viro lembrando da agonia, sendo que me levaram pra fora da igreja com o caixão e não vejo nada de luz daqui de dentro. Só a fome, um calor e o cheiro insuportável da roupa que me faz me virar de novo, como o preá depois que entende que tá dentro d´água. Infeliz parece que tá vivo, é o que eu penso nessa hora, e é também o que dizem esses que me carregam e me soltam na calçada que até a tampa do caixão se abre. O padre aperta a cruz no pescoço como quando a gente aperta um cachorro e ele grita, grita, e o povo parece um bando de preás correndo como se todos os cachorros se soltassem e fossem pras pedras caçar.
Eu tenho fome, vontade de tirar essa roupa mas um medo muito grande de, em vez de me darem de comer, me colocarem uma cruz nos ombros. Me levanto devagar, agora com um pouco de susto e as pernas meio bambas me levando pros braços da minha madrinha.



Mano esse conto me faz pensar na perspectiva de um zumbi. Claro, não é a mesma coisa. Porém, assiti um filme chamado "Colin", que era justamente no foco de um rapaz que nos primeiros minutos do longa acaba mordido e zumbificado. Sombrio, triste, melancólico e angustiante.
Fiquei pensando na angústia de um defundo que sabe que morreu e já passou por isso outras vezes. Acho que seu conto tem um tom meio onírico, no tom de pesadelo. Lembrei de uma vez que eu sonhei que devia ficar enterrado um tempo e me dava agonia ao pensar: "Mano, como é que eu vou respirar nesse período?" Enfim, gostei muito desse narrador caótico e fiquei pensando no aspecto simbólico do preá e do cachorro. Sinto que são partes do mesmo narrador. Mas isso já é fritação minha. Enfim, ótimo conto!