Um desfecho (nada) gentil
Um réquiem ao Brasil; uma ode a Fernanda Gentil
Senti muito a derrota brasileira nesta edição da Copa do Mundo. Senti mais até que o 7x1 da Copa de 2014. Ali, a derrota já tinha virado piada no meio do jogo. Agora, como diriam os humoristas do Falha de cobertura, estávamos diante de uma “derrota normal”: aquele fracasso que em algum ponto nos dá até uma certa esperança. Uma pequena depressão, como perder um ônibus e esperar pelo próximo.
No primeiro campeonato que, em virtude do streaming, assisti literalmente a todos os jogos, distraí o peso de dois lutos com o fanatismo num esporte que, sendo vascaíno, eu evito até acompanhar. Débora me avisava, fazendo a paródia de um verso dos irmãos Gallagher: “Não coloque sua vida nas mãos de uma seleção que vai jogar tudo pro alto.” Eu devia ter seguido o conselho.
Resta-nos, agora, a Copa do Mundo da seleção feminina ano que vem. O que me faz lembrar que, num evento em que a arbitragem teve um protagonismo um tanto incômodo, me incomodei ainda mais com a falta de diversidade no apito. Nos bastidores, por outro lado, as comentaristas dos canais de transmissão, sobretudo do streaming, deram aula. Gostaria de destacar uma delas: a já veterana Fernanda Gentil, colega cronista, uma vez que era responsável por um quadro que se propunha a narrar os destaques da disputa recorrendo ao gênero.
Mas não foram as crônicas de Fernanda Gentil que me chamaram a atenção, mas sua acurácia jornalística quando, em pleno debacle do Brasil, entrevistou alguns jogadores no caminho do vestiário e, a título de despedida, fez uma pergunta acachapante: “Bem ou mal nós adultos conseguimos lidar com esse resultado, mas o que você diria para as crianças que estão nos vendo agora e precisam de algumas palavras para seguir acreditando?”
Casemiro, que nos levou da glória ao fiasco durante a campanha, não disse uma palavra. Apenas se emocionou, chorando sem lágrimas, bem ao estilo “menino Ney”. O goleiro Alisson foi o que mais se aproximou a dar uma resposta coerente: “Eu queria ter vencido todas as competições que disputei”, ele disse, extremamente lúcido. “Mas a verdade é que eu perdi mais do que venci e isso acontece com a grande maioria dos vencedores: se perde mais do que se vence.”
Nos dias consecutivos à tragédia, vimos alguns episódios que refletem a preocupação de Fernanda Gentil: crianças queimando seus álbuns da Copa, algumas incensadas pelos próprios pais, que não lidaram tão bem com a frustração. Essas crianças (as de pouca e as de maior idade) precisaram dos seus ídolos, e eles os decepcionaram. A minha preocupação, no entanto, vai além, e tem a ver um pouco com os contratantes da Fernanda Gentil e os torcedores que eu tinha encontrado dias antes reunidos num shopping center, assistindo ao jogo Argentina e Cabo Verde em um grande telão instalado na praça de alimentação.
Pelo brilhante retrospecto, Cabo Verde era meu segundo time. A Argentina é um time sul-americano, mas até aí Colômbia também era, não havia por que torcer por um rival histórico naquela ocasião. Mas para aqueles espectadores, havia sim: Messi. E respeito a genialidade do maior artilheiro em copas, pelo menos até aqui, mas não me entra na cabeça como um brasileiro pode torcer pela Argentina salvo (e olhe lá…) o contexto no qual ela esteja enfrentando um time europeu, de preferência a Alemanha ou a Itália, pra vingar o 7x1 e impedir que alguém iguale nosso feito do penta.
Em resposta à Fernanda Gentil, eu falaria do amor ao esporte (que só entende quem tem um amor parecido por alguma coisa, como eu pela literatura). Mas falaria também que a nova geração de torcedores, infelizmente, têm sim em quem acreditar: em Messi, em Mbappé, em Harry Kane, no próprio Haaland. Eles são os craques de jovens que às vezes nem têm um time brasileiro do coração, e torcem por algum da Champions League, tratados como deuses pelos narradores.
Não sei se posso culpá-los (os jovens, digo). O avião que transportava a Seleção Brasileira voltou para o Brasil com um único jogador: o eloquente Danilo, porta-voz dos colegas. A quem defende o horror das bets batizando até o nosso principal certame, argumenta-se que só assim podemos contratar jogadores que façam frente àqueles que citei.
Diante desse quadro, fica difícil de acreditar em um novo ciclo, e não no círculo vicioso de quase 30 anos sem levantar o troféu.




Obrigada. Texto bão demais da conta. Senti mto, como se fosse hoje a derrota.
Cara... falando de Fernanda da: eu queria estar lá para abraçar e dizer que, como muita coisa que ela fala, ela seria criticada, como foi. Mas ela teve uma coragem inédita para um jornalista esportivo. Ela abriu seu coração para uma verdade incômoda: Será que em algum momento os jogadores pensam nas crianças que os vêm como ídolos. Será que eles sabem quando uma criança percebe que a máscara cai? eu ia escreve uma crônica sobre isso. Não preciso mais. Vc foi cirúrgico.