Robinho
Sobre as coisas e o tamanho que elas têm, na infância
Segundo mainha, Robinho era uma criança que esqueceu de crescer. Era assim que explicava a sua condição, quando achávamos estranho o fato de ele ser o mais velho entre nós, e a despeito da idade preferir a nossa companhia à do restante dos primos. Era o primeiro entre os netos de vovó, fruto de uma gravidez precoce porque minha tia, que fugiu de casa para casar aos treze, teve ele aos quinze, o que o aproximava mais da idade dos meus tios que propriamente da nossa.
Foi a partir das histórias dele que conheci a juventude de minha mãe, numa viagem de praia em que lhe apresentou o mar. Ele perguntou se podiam caminhar na água até tocar o céu, porque pelo horizonte aquilo parecia ser possível, embora não soubesse nadar e não tivesse como superar as ondas quebrando na arrebentação.
Era uma lembrança mais poética que a do seu acidente, numa manhã em que, apressado para tomar seu leite quente, tentou tirar sozinho a panela do fogão e ela virou por cima dele. Pelo que minha mãe contava, a dor foi tanta que ele desmaiou no ato e foi levado às pressas, ainda desacordado, para o pronto socorro. Não tinham ideia se aquele trauma tinha algo a ver com o atraso no seu desenvolvimento. A queimadura era enorme, mas com o tempo, esqueceu de crescer como ele. Virou uma queloide que até hoje ele carrega no peito, como um pequeno mapa.
Olho pra esse mapa e ele me conduz ao passado, a uma culpa que guardo como um tesouro desafortunado. Não me lembro quantos anos tinha, mas já era crescido o suficiente para me lembrar disso, hoje. E se há lembrança, houve o mínimo de consciência. Então se a inocência me redimiu do crime, a intenção me condenava. E talvez seja isso o que até hoje me incomoda.
Era manhã, devia ser domingo. No interior o nosso mar eram duas piscinas, a maior mais funda mesmo pra mim, que sabia nadar. Não havia muitas delas na cidade, naquela época. Eu havia aprendido na única que tinha, no clube. Aquelas eram particulares, de um vizinho que construiu em sua propriedade, e só consigo pensar que, se Robinho estava ali, era porque o convite nos pegou de surpresa, e o levamos já que ele sempre aparecia lá em casa nos fins de semana, pra brincar e ler gibi.
Lembro que demorava pra chegar no sítio. Que passava pelo túnel, numa ferrovia abandonada: um dos terrores da infância que eu atravessava de olhos fechados, ouvindo o barulho dos morcegos batendo suas asas e guinchando por cima do carro, minha mãe me respondendo “já vai passar” enquanto eu perguntava de instante em instante se o martírio já terminara. Mas lembro menos da ida que da volta. O túnel pela primeira vez sendo cruzado em silêncio, e eu agora também me punindo, encarando a penumbra de olhos abertos, descobrindo que ela podia me habitar também, por dentro.
Porque foi premeditado. Talvez o excesso de zelo de minha mãe me enciumou, como me enciumava aquela lembrança dela vivendo num mundo antes de mim, sonhando tocar o céu com uma outra criança. Devo ter me lembrado da história quando fui advertido: que ficasse com Robinho na piscina mais rasa, onde nossos pés tocavam o fundo. Mas as outras crianças se desafiavam o tempo todo. Corriam até a piscina mais funda e pulavam, às vezes se empurrando, quando o outro não tinha coragem.
A piscina não era de cerâmica, mas de concreto. Então a água era escura, impossível de se ver o fundo, o que gerava um terror adicional. Saí da água e Robinho veio atrás, como um cão obediente. Me incomodava andar com ele feito um penduricalho, ao mesmo tempo que me parecia inconcebível que ele não soubesse nadar: se alguém o empurrasse na piscina, aposto que daria o seu jeito. Não queria tocar o céu? Alguém tinha que mostrar por onde começar. A ideia passou tão rápida por mim quanto empurrão que dei. Robinho caiu na água e começou a se afogar. Todas as crianças paralisaram, sem conseguir reagir.
Por muita sorte havia um adulto por perto.
Décadas depois voltei a cruzar aquele túnel, em busca do sítio. A travessia, que na infância parecia interminável, não durou um piscar de olhos. A piscina nem existia mais, mas eu tinha certeza de que hoje a água não daria no meu pescoço. Eu havia crescido a ponto de tudo ao meu redor parecer achatado, como aquela lembrança que eu sufoquei em algum lugar. Robinho continuava uma criança grande, que nunca aprendeu a nadar.
Me pergunto se realmente me perdoou, vendo as coisas ainda do seu verdadeiro tamanho.



não dá para perguntar a robinho e tirar esse desassossego do peito?
Profundo.