Pobres paulistas
Uma análise de discurso da recepção ao filme “O agente secreto” pela imprensa sudestina
Em 1983, o Ira! lançava seu primeiro compacto com as canções “Pobre paulista” e “Gritos na multidão”, mais tarde incluídas no segundo álbum da banda, Vivendo e não aprendendo (1986). Segundo Nasi, em entrevista à revista Trip publicada em 2009, “Pobre paulista”, letra composta por Edgar Scandurra ainda na adolescência, continha uma clara mensagem xenofóbica: “Não quero ver mais essa gente feia. / Nem quero ver mais uns ignorantes. / Eu quero ver gente da minha terra, / Eu quero ver gente do meu sangue.”
Citando um encontro com o guitarrista, Nasi explicava em todas as linhas: “(...) ele (Scandurra) sentou e disse: ‘Olha, essa música é realmente um preconceito contra a invasão de nordestinos, era o que eu estava pensando na época e foi isso que eu quis dizer mesmo, eu não aguentava essa coisa de música baiana, de Caetano, de Gil’”, justificava o compositor que escreveu a letra nos idos dos anos 1970, em pleno rescaldo da Tropicália.
Banida do repertório do Ira! desde então, “Pobre paulista” é uma pequena amostra do tipo de reação que se pode esperar do resto do Brasil, particularmente do Sul-Sudeste, sempre que a cultura da outra parte do país, particularmente do Norte-Nordeste, alcança algum tipo de evidência. Mês passado foi a premiação do Globo de Ouro na qual O agente secreto (Brasil, 2025), longa dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, se consagrou como melhor filme em língua não inglesa e o ator baiano Wagner Moura, por sua vez, amealhou o troféu de melhor ator na categoria drama.



