O frei "red pill"
Frei Gilson e a sacralização do discurso "red pill"
Frei Gilson promove a sacralização do discurso red pill que tem agravado a verdadeira epidemia de feminicídios registrada ano após ano ao redor do Brasil. O clérigo paulista, que reuniu mais de meio milhão de pessoas num show em João Pessoa e hoje detém os títulos de cidadão paraibano e pessonense, é declaradamente machista e misógino, para não citar outras questões ideológicas que ele apregoa e que a imprensa trata como “polêmicas” inócuas, quando beiram o delito.
“Essa é uma fraqueza da mulher: ela sempre quer ter mais”, diz ele em uma de suas pregações, criticando o empoderamento feminino, como veremos adiante. “Eu não me contento só em ser, em ter qualidades normais de uma mulher. Eu quero mais. E isso é a ideologia dos mundos atuais. Uma mulher que quer mais, vou até usar uma palavra que vocês já escutaram muito: empoderamento.”
E segue: “É claro ver que Deus deu ao homem a liderança. Isso está na Bíblia. A guerra dos sexos é ideologia pura. Para curar a solidão do homem, Deus fez você (mulher). Deus faz uma promessa para Adão: eu vou fazer alguém para ser sua auxiliar. Aqui você já começa a entender a missão de uma mulher. Ela nasceu para auxiliar o homem.”
Agora, comparemos as falas de Frei Gilson às de Geraldo Neto, tenente-coronel da Polícia Militar que matou sua esposa e colega de corporação mês passado, em São Paulo: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata a esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser.”
Numa postagem do Instagram que utilizava o áudio de um dos sermões de Frei Gilson, uma médica especialista em saúde da mulher recomendava às esposas “paciência com o marido”, retratando uma série de situações em que os homens tentam “ajudar” no ambiente doméstico, criando problemas ainda maiores para as mulheres. O texto falava da perimenopausa, basicamente respaldando o argumento de que, se a mulher está irritada, só podem ser os hormônios falando. Comentei criticando a postura, e mexi num vespeiro conhecido desde aquele show no Busto de Tamandaré: o dos homens que encontram em Frei GIlson um endosso, e o das mulheres que surpreendentemente concordam com ele.
Entre réplicas de contas suspeitas, quase todas com a clássica foto de perfil do homem branco, calvo e de óculos escuros, se retratando ao volante de um carro, um deles me chamou a atenção. Era de um policial, e soube disso quando questionei uma outra característica bastante comum entre esses perfis, todos fechados pelo controle de privacidade da rede, talvez porque alguns homens têm mesmo muito a esconder. O policial engrossava o coro dos que defendiam Frei Gilson, e se apressavam a julgar minha crítica como uma pauta da esquerda (aproveitando para insultar sacerdotes como o padre Julio Lancellotti, de visões reconhecidamente progressistas).
Sim, compactuo com os valores progressistas, mas não, não concordo que a luta contra o machismo e a misoginia devam ser pautas somente da esquerda, como também não concordo que devam ser pautas somente das mulheres. Porque são homens como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) que estão tentando barrar o Projeto de Lei nº 896/2023, aprovado pelo Senado, que criminaliza a misoginia e a equipara ao crime de racismo. Porque foi um homem que matou uma mulher e colocou seu corpo dentro de uma mala, jogou-a no meio da rua quase ao lado de minha casa, aqui em Manaíra, pagando um trocado para outro homem atear fogo nela, como não se deve lidar nem com um saco de lixo.
Porque tenho uma família feita de mulheres e por mulheres. E nenhuma delas está segura num país como o nosso, majoritariamente cristão, em que cristãos como o Frei Gilson ainda propagam ideias como estas que reproduzi.




O reino do céu está cheio de felasdaputas feminicidas e estupradores.
Não vou pra lá, graças a Deus.
Fuça a vida dele. Vai achar alguma coisa podre com certeza.