Divórcio
Sobre meu processo de separação
Estou em processo de separação. Tem sido difícil, afinal, foram anos de uma relação estável, diferente de todas que eu já vivi. Mas não vou mentir, um dia olhei pro espelho e de repente notei que alguma coisa estava diferente. Eu tinha mudado, já não era mais a mesma pessoa autoconfiante de outrora. Demorei até entender, mas quando entendi percebi que precisava dar esse passo. Tomar coragem e fazer isso por mim. Melhor terminar agora, quando ainda estamos em bons termos, que adiar a decisão mais pra frente e ser injusto com tudo que construímos, eu e ele. Sim, ele: o meu barbeiro.
Porque a relação que eu tinha com meu barbeiro era mais longa e mais sagrada do que muito matrimônio. Nos conhecemos pouco depois da pandemia, quando ele ainda trabalhava num estabelecimento aqui perto de casa. Cheguei à barbearia no mais terrível dos estados, depois de três sucessivos cortes de cabelo caseiros que me deixaram um misto de Liam Gallagher, o vocalista turrão da banda Oasis, com Beiçola, o personagem pasteleiro interpretado pelo ator Marcos Oliveira no seriado A grande família.
Fui atendido com extremo profissionalismo, embora encarasse com um certo ceticismo a abordagem do jovem que me ofereceu como cortesia uma consultoria de visagismo, arte na qual dizia ter se especializado e que prometia harmonizar minha aparência com minha identidade pessoal. Eu tinha ganhado alguns quilos na quarentena e fingi acreditar que minha identidade pessoal, tão estilhaçada, pudesse harmonizar com qualquer coisa àquela altura, mas o barbeiro 一 ainda “o”, logo promovido a “meu” 一 literalmente fez cair a minha máscara e me transformou.
Imediatamente me lembrei de História do cabelo, romance de Alan Pauls em que um homem obcecado pelo próprio visual vaga por Buenos Aires procurando o corte de cabelo perfeito. Ao longo de mais de quatro décadas, eu fui esse homem. Já me vi às voltas com mullets involuntários que me deixaram suplicante feito um poodle de salão, uma velha tia lésbica, um cantor de sertanejo dos anos oitenta. Já aderi aos degradês equivocados que me transformaram num sósia de Kim Jong-un, o ditador coreano que impõe o próprio corte de cabelo aos universitários do seu país. Mas toda a minha busca se encerrava ali: meu barbeiro foi enfim capaz de entender quando lhe disse que eu queria um cabelo meio curto, mas meio longo. Que desse a impressão de zelo mas que ao mesmo tempo parecesse natural como quando eu acabasse de acordar. Que fosse meio reto, mas meio repicado. Que disfarçasse minhas entradas, mas que não cobrisse a testa inteira.


Minha relação com ele era de uma fidelidade canina. Quando pediu demissão e foi trabalhar em outra barbearia, eu o acompanhei, mesmo tendo que trocar a comodidade do estabelecimento vizinho por outro à distância de uma viagem de carro. Quando, anos depois, pediu demissão novamente e decidiu inaugurar o próprio negócio, eu o segui, cruzando a cidade, apostando no sucesso do empreendimento. Foi bem aí que as coisas começaram a azedar entre nós. De minha parte, vibrava com cada pequena conquista do meu barbeiro. Cada reforma que ia gradativamente transformando a garagem da casa de seus pais num salão com direito a letreiro na fachada, luz de led nos espelhos, capas personalizadas com seu monograma, cantinho do café… Mas eu devia saber que tudo isso, da parte dele, vinha com um custo.
Tudo mudou de forma repentina quando, depois de um desses conselhos meio impositivos das mulheres, minha esposa sugeriu pararmos de pigmentar a barba, permitindo que os fios grisalhos crescessem ao natural. Ele tentou me demover da ideia (veja bem: ela estava cruzando um limite que ele jamais cruzara), mas eu estava numa sinuca de bico: era a vontade da minha esposa contra a dele. Escolhi obedecer à esposa, e tive que arcar com as consequências. Como não íamos fazer a coloração, o que abreviaria nosso diligente compromisso semanal, ofereceu-me um botox capilar. “Não é muita química pro meu cabelo?”, achei por bem consultá-lo, deixando nas suas mãos. “É como uma hidratação mais profunda”, ele respondeu, recorrendo à segurança de um procedimento que inclusive já tínhamos feito.
Meu erro foi confiar demais. Não podia compreender o que hoje compreendo: meu barbeiro não estava tentando compensar o tempo, mas o dinheiro perdido com o outro serviço. Então eu era isso pra ele, só mais um cliente, um bolso a mais pra pagar a conta do playstation instalado na televisão da sala de espera?
Há um mês não vou ao meu barbeiro.
Meu cabelo está parecendo o capacete do Darth Vader.



tmj irmão. meu barbeiro (que só faz cabelo) é um cafajeste que aturo há dez anos. já falou da minha ex pra minha esposa, falou que tava fechado na pandemia e descobri que tava abrindo na miúda - daí apareceu na tv falando que tava com dificuldade e vendendo retrato (rabisco) pra tentar se manter, e fechou mesmo pq começou pegar aula de desenho (rabisco) full time -, se mandou pra Austrália do nada e me deixou na mão dois anos, e essa é a prosa pequena ainda. e é folgado e até hoje só corta do jeito que ele quer.
Excelente clickbait, aliás, já havia me divorciado de algumas cabeleireiras por aí, mas não dessa forma (ou não).