Capitalismo platônico
Sobre a idealização do consumo numa crônica menos chata do que isso faz parecer
Minha esposa chama de “consumismo platônico”. O hábito de sair passeando pelo shopping, entrando nas lojas, fotografando os looks dos manequins na vitrine, as etiquetas dos produtos que ela jamais vai comprar. O mais perto que se permite é levar os itens ao provador, ver como ficam nela e devolver para a loja, indo à próxima para repetir o processo.
No Dia dos Namorados, foi fácil escolher seu presente. Fui ao celular dela, dei uma olhada furtiva na galeria de imagens, e tudo estava ali: escolhi uma das peças, e nem precisei me preocupar com o tamanho, que costuma ser uma questão séria nessas ocasiões. As informações em cima do código de barra me deram conta de tudo, do preço à marca da jaqueta.
Antes, ela costumava fazer isso nos sites de compra. Sabe como é, quem nunca encheu o carrinho de livros e depois desistiu, deixando-os ali para sempre, como um lembrete da sua falta de dinheiro? Ocorria também a ela de deixar tudo numa wishlist, que é literalmente uma lista de desejos, como a dos enxovais de casamentos ou chás de bebês que nas antigas era deixada nas lojas, para o convidado da festa escolher com o que queria presentear quem a promovia.
Só que não é muito elegante enviar uma lista num aniversário, e acessá-la era mais difícil que ir simplesmente à galeria de imagens, então seu consumismo platônico me ajudou um bocado. Não teve erro, e como a peça escolhida tinha sido fotografada num dia em que eu participava indiretamente da experiência, já um tanto enfadado, ela ainda pensou que eu tinha reparado no interesse dela pelo presente. Não consegui sustentar a mentira e revelei o truque.
Depois descobri que existe até aplicativo pra isso. Dopamine Shopping é uma plataforma na qual você navega e pode colocar produtos no carrinho, simular até a entrega, mas nada disso é cobrado nem você vai receber o que “comprou”. Simular toda a situação promete satisfazer apenas a sua vontade ou compulsão de comprar com uma descarga gratuita de dopamina. Como um site de bet no qual você aposta feijões virtuais, que era como jogávamos baralho em família, com menores de idade na mesa.
Todo esse capitalismo platônico me faz pensar que já escapei de vários assaltos platônicos. Em um, caminhávamos Débora e eu com o cachorro quando uma moto com dois passageiros se aproximou e o de trás desceu, de forma meio atabalhoada, se dirigindo até a gente. Como não houve abordagem, seguimos caminhando distraídos, e só quando chegamos na esquina me ocorreu perguntar: “A gente acabou de escapar de um assalto, foi isso?” Ela confirmou minhas suspeitas. Foi talvez o primeiro assalto culposo, em que o assaltante não tem intenção de assaltar, como a marcação culposa do Brasil no Haaland, na Copa.
Em outra ocasião, estávamos em turma indo para a festa de aniversário de um amigo. Era numa rua esquisita do bairro dos Bancários, perto ali do Bar do Baiano. Enquanto, na penumbra, tentávamos achar uma campainha que não existia, bater palmas tentando sobrepor o barulho da música já rolando lá dentro e recorrendo por fim aos celulares, vi dois homens se aproximando no final da rua, olhando pra gente, e anunciei o assalto antes deles.
Puxei a comitiva, pedindo que andassem apressados e que guardassem os celulares nos bolsos, me seguindo até o Bar do Baiano, onde talvez a presença de outras pessoas inibisse a ação dos meliantes. Fomos perseguidos a curta distância quando atravessávamos a rua e a dupla também atravessou, refazendo os nossos passos. Chegamos ao Bar do Baiano e eles no nosso encalço, até pararmos e eles seguirem, e conseguirmos finalmente respirar aliviados.
Até notarmos no semblante dos clientes do bar a mesma expressão que vimos no rosto dos supostos assaltantes. Ocorre que a festa era à fantasia, e todo nosso grupo estava fantasiado, destoando completamente dos demais. Meus amigos até hoje caçoam de mim.
Eu, vítima de um assalto platônico.



hahah de fato a crônica foi muito divertida! o único problema do assalto platônico é o medo não er platônico kkkkk. cara, eu tô chocada que exista um site para simular todos os passos de uma compra, só que fake. sério. fico pasma, pois tipo... tu meio que SABE já que é de mentirinha, isso dá o mesmo efeito? celoko...
Fiquei sabendo dessa site há pouco tempo, pensando comigo: que bizarro. Mas daí lembrei de quantas vezes tinha feito isso, perder um tempo danado enchendo carrinhos pra depois desistir, e pensei: quem nunca. Não podemos negar que comprar (ou quase) é um prazer rs.