A pessoa emocionada
Como minhas emoções tornam a vida das outras pessoas mais trágica, às vezes mais cômica
Sou uma pessoa emocionada. E como todo membro de uma geração anterior que usa uma gíria da geração seguinte, tenho agora a tarefa ingrata de explicar a gíria aos meus contemporâneos, enquanto os mais jovens rolam os olhos de vergonha. Mas calma, não é um conceito tão difícil de entender quanto o de “farmar aura” ou “six seven”. Na verdade, é algo até bem próximo do próprio significado da palavra “emocionado”.
Emocionado é aquele sujeito que, num relacionamento amoroso, por exemplo, tem arroubos de romantismo já no primeiro encontro. Nós emocionados já estamos planejando o casamento, enquanto a contraparte envolvida provavelmente já deve estar pulando fora do barco que nem chegou a entrar, assustada com tamanha afetação.
Vou dar um exemplo literário, que talvez até explique a fama que o livro adquiriu entre os tiktokers e os outros usuários das redes sociais: o sonhador de Dostoiévski em Noites brancas (1848). Nastienka é uma moça comprometida, apaixonada por outro e desde o princípio avisa ao desconhecido: “Não se envolva comigo”. Mas basta uma noite em claro e lá está o nosso personagem emocionado, arriado os quatro pneus pela donzela.
Mas eu não sou o tipo de emocionado que se emociona só no amor — e, acredite, antes de me estabelecer numa relação emocionada que já dura quase 15 anos, sofri muito com esse traço da minha personalidade. Sou emocionado também no jogo, e como já diria o ditado, feliz em um, infeliz em outro. Na Copa do Mundo, que por sinal tenho assistido na casa do meu editor, já derramei cerveja em gol da Seleção Brasileira, já dei chutes no ar quase derrubando os móveis, quiçá já ocasionei incidentes diplomáticos com os vizinhos, e certamente incomodei muito o seu filho Arthur, que se tranca no quarto porque não suporta a gritaria em dia de jogo.
Em Copa, aliás, não sou só emocionado com o Brasil. Já me vi gritando de madrugada pelo Egito, pela Argélia, pela Bósnia e Herzegovina. Acordando toda a casa, alarmando a vizinhança, fazendo os animais se agitarem como se estivessem ouvindo fogos de artifício. Entendam: sou super empático com essa questão tão delicada, mas de verdade, eu não consigo me controlar. No máximo, quando eu calo a boca, eu tenho que dar meus pulos ou me atirar ao chão como o Neymar, rolando até a estratosfera.
Uma vez, na Copa passada, arremessei uma cadeira na piscina de casa, não sei se por triunfo ou por decepção. Em esportes, entendo que é o meu lado competitivo se revelando. Eu sou como a Mônica, a personagem interpretada pela atriz Courteney Cox no seriado Friends (1994-2004). Não importa que seja na quadra tênis ou na porrinha, eu vou dar tudo de mim e brigar como um manifestado. Se eu ganhar, vai ter comemoração; se eu perder vai ter choradeira — geralmente desproporcional ao comportamento dos colegas que só estão ali pelo espírito esportivo. A coisa de que o importante é competir realmente não é pra mim. Por pior que eu seja no esporte, ou por pior que seja o time pelo qual eu torça, vou ser possuído pela competitividade e sofrer até o fim.




Não à toa sou vascaíno, e ainda alimente o sonho do hexa mesmo que seja preciso quebrar o grandalhão do Haalland amanhã, ou escapelá-lo puxando aqueles cabelos sedosos e hidratados como num comercial de xampu, arrancando sua cabeça por aquele maldito rabo de cavalo. E que venha até Portugal. Cristiano Ronaldo pelo menos tem caspa e o Vini jr. já faz esse tipo de propaganda por aqui.
Outro papelão que meu lado emocionado me faz passar é em filmes de terror. O tal do jump scare (aqueles sustos que você tem no meio do filme) acontece comigo o tempo todo, com o agravante de que, se eu estiver com alguma coisa na mão, como um balde de pipoca ou um copo de refrigerante com gelo, ele vai ser fatalmente arremessado parar longe de mim e sujar alguém. No cinema, há quem pare de ver o filme para assistir às minhas reações. Meus amigos cinéfilos evitam sentar ao meu lado, incomodados com meus achaques. É torturante, porque juro que não é proposital.
Sou emocionado, mas que triste deve ser uma vida sem emoção.




Deus me free não ser emocionada!
De “sem emoção” já bastam os robots. E basta.